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Homeless World Cup: das ruas para os gramados do mundo

Depois de Milão, em setembro, torneio internacional será realizado no Brasil, em 2010

Seleção brasileira de 2008, em Melbourne, Austrália (crédito: Homeless World Cup)
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Regina Rocha - São Paulo
postado em 24/07/2009 15:53 h
atualizado em 24/07/2009 19:36 h

Em setembro de 2010 o Brasil sediará a 10ª edição da Homeless World Cup, campeonato internacional criado há sete anos para promover pessoas em situação de risco, milhares no mundo todo que habitam favelas, cortiços e ruas das grandes cidades. Durante dez dias, a praia de Copacabana, no Rio, abrigará os jogos desta copa tão especial. As partidas, ao ar livre, serão disputadas em quadras bem estruturadas, com piso emborrachado, proteções laterais e toda a infraestrutura que exige o evento esportivo. Seleções de países dos cinco continentes estarão no país para "jogar bola" e confraternizar. O atual campeão da Homeless World Cup é - quem diria - o Afeganistão, título conquistado em 2008, na Austrália. No certame, o Brasil ficou com um modesto 7º lugar.

Milão em 2009
O torneio de 2009, a 7ª Homeless World Cup, acontecerá em Milão, na Itália, em setembro, com a participação de 500 jogadores, de 48 países. Os eventos de 2011 e 2013 também já estão marcados, e acontecerão respectivamente em Paris (França), e Poznan (Polônia).O Brasil participou das seis copas já realizadas: em Graz, Áustria (2003, 18 países, 3º lugar), em Gotemburgo, Suécia (2004, 26 países, 15º lugar), em Edimburgo, Escócia (2005, 27 países, 11º lugar), na Cidade do Cabo, África do Sul (2006, 48 países, 16º lugar), em Copenhague, Dinamarca (2007, 48 países, 22º lugar) e em Melbourne, Austrália (2008, 53 países).

Para este ano, já está convocada a seleção que competirá em Milão. O time é formado de 8 jogadores, jovens com idades entre 16 e 19 anos, em média. "Para estes meninos, que no final das preparatórias receberão treinamento de técnicos do Corinthians, a copa é uma chance sem igual de ter uma vida voltada ao futebol", explica Guilherme Araújo, responsável pela candidatura brasileira. Para Guilherme, que é diretor da revista Ocas e coordenador do Programa Futebol Social, esta competição é principalmente um projeto de caráter social, que busca agregar pessoas de todas as idades, inclusive idosos, que também participam em jogos paralelos e nas muitas atividades do evento.

Revelações
Uma seleção feminina também foi instituída a partir da Copa na Dinamarca, em 2007. Nesse campeonato foi eleita como melhor jogadora Michele da Silva, então com 17 anos, hoje uma atleta convocada para a categoria subvinte da seleção brasileira oficial de futebol. Michele era moradora da favela de Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, e chegou à Homeless graças ao programa social Bola pra Frente. Outra revelação foi o jogador Carlos Magno, melhor jogador da Copa de 2008. Carlinhos veio da comunidade Vila Nova, na Baixada Santista, e hoje integra um time profissional de futebol.

No Brasil, o campeonato do ano que vem será organizado pela revista Ocas com patrocínio da Nike Brasil, do Sport Club Corinthians Paulista e do Instituto Illuminatus. O Ministério do Esporte já manifestou apoio ao evento, conta Guilherme Araujo. Na sua opinião, o mais importante neste evento é o legado social que traz: "Sabemos que o esporte tem esse poder de recuperar. No Brasil, mais ainda, pode representar uma opção profissional para milhares de jovens, que com isso se afastam das drogas, do alcool, da pobreza".

Mais que uma atividade esportiva, esta Copa quer fortalecer o trabalho das entidades sociais e comunitárias, que se tornam parceiras na preparação do campeonato. "As organizações sociais são nossas parceiras. São elas que podem atrair e selecionar os jovens que, no final, serão classificados para a seleção brasileira. Pois o mais importante, insisto, é o trabalho que está por traz deste evento, e que leva milhares de jovens a abraçar uma esperança de ter uma vida melhor", reitera o diretor da Ocas.

Homeless World Cup 2008 realizado em Melbourne, Austrália (crédito: Homeless World Cup)

"Pessoas que vivem em situação de risco, nas ruas, são um fenômeno do mundo todo, mas há diferentes perfis sociais destas populações, como os refugiados de guerra, na Europa, os "homeless" londrinos, ou os que habitam contêineres na África."

Copa e copas
A pergunta é inevitável: O exemplo da Homeless World Cup deveria servir à outra copa, a Fifa World Cup? Guilherme não tem dúvida que sim. "A infraestrutura que poderá surgir em razão da Copa de 2014, por si só deveria ser pensada para ser útil à população. Porque não é possível dispor de investimentos vultosos só para o momento do evento. A postura da Fifa só tem de ser esta, de ajudar os países a resolver suas prioridades sociais", declara.

A primeira Homeless World Cup realizou-se em Graz, na Áustria, em 2003, com a participação de 18 nações. De lá para cá, o evento cresceu, em estrutura e número de países participantes, e hoje faz parte da agenda esportiva internacional. Gotemburgo, Suécia (2004), Edimburgo, Escócia (2005), Cidade do Cabo, África do Sul (2006), Copenhague, Dinamarca (2007) e Melbourne, Austrália (2008) já foram sedes dos eventos.

Pessoas que vivem em situação de risco, nas ruas, são um fenômeno do mundo todo, mas há diferentes perfis sociais destas populações, como os refugiados de guerra, na Europa, os "homeless" londrinos, os que habitam contêineres na África... No Brasil, a exclusão atinge desempregados, migrantes, doentes mentais, e até populações quilombolas, por exemplo, que se vêem destituídas de condições dignas de vida, expõe o diretor da Ocas.

Os objetivos de transformação social são o foco do evento, garante Guilherme, mesmo havendo um crescimento em termos de organização e que o caráter competitivo se imponha mais fortemente. Internacionalmente, o evento tem apoio da UEFA, Nike, Vodafone Foundation, Embaixador Global Eric Cantona e atletas profissionais como Didier Drogba e Rio Ferdinand. Com base nesta estrutura, a Homeless World Cup promoveu e apoiou a criação de programas sócio-esportivos em mais de 70 nações, envolvendo pelo menos 100 mil jogadores desde que foi fundado. Mais de 70% dos participantes tiveram suas vidas transformadas: saída das drogas e álcool, obtenção de empregos, moradia, educação e atuação como técnicos de futebol, jogadores e empreendedores sociais.

Informações: www.homelessworldcup.org, ou www.ocas.org.br

Ocas, a revista
A revista Ocas, publicada pela Organização Civil de Ação Social, oferece uma chance de mudança para pessoas em situação de rua ou de risco social. A publicação serve como um instrumento de transformação social e geração de renda para seus vendedores, que compram a revista por R$ 1 e a vendem pelo preço de capa, R$ 3. Desde sua fundação, em 2002, participaram do projeto cerca de 1,7 mil pessoas. A Ocas é membro da INSP (International Network of Street-papers), que reúne mais de 100 publicações, e organiza a participação do Brasil na Homeless World Cup.





 
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