Diretor geral da Trevisan Escola de Negócios, Fernando Trevisan acompanha em detalhes todos os lances dos preparativos do Brasil para a Copa de 2014 e acredita que o Mundial possa acelerar o processo de modernização por que passa o futebol brasileiro, e sua inevitável elitização.
Trevisan vê dois pilares fundamentais para a construção de um bom legado pós-2014: investimentos em infraestrutura e formação de recursos humanos, especialmente em gestão esportiva.
Como você vê a possibilidade de sustentação econômica das futuras arenas para a Copa de 2014?
Estamos falando de doze cidades, com diferentes contextos. Em algumas, os estádios são privados e em outras são públicos e isso exige diferentes soluções para a sustentação depois da copa. Os maiores problemas estão em Brasilia, Natal, Cuiabá e Manaus, cidades que não têm um futebol forte. Mesmo que sejam construídas arenas multiuso, grande parte da sustentação desses equipamentos depende do futebol e é um problema quando não há clubes que sejam capazes de dar sustentação ao futebol local. Sessenta jogos é o número máximo por ano em qualquer estádio. Numa arena como a Nova Fonte Nova é possível a sustentação porque Salvador tem dois clubes fortes, o Bahia e o Vitória, ambos com torcidas muito presentes. Mesmo assim, ainda sobram outros 30 dias de finais de semana para eventos.
Então o maior desafio de cada arena é ter um clube que funcione como âncora?
Sim, Morumbi e Maracanã, por exemplo, terão sempre o futebol como âncora, mas em outros centros é necessário complementar a receita com serviços, de forma a transformar a arena em um centro de negócios e entretenimento. Isso é ainda mais fundamental para quatro cidades: Natal, por exemplo, é um destino turístico natural e a arena pode ser uma ferramenta importante para estimular essa atividade. Manaus, por estar na Amazônia, tem o atrativo da floresta. Cuiabá tem a proximidade com o Pantanal Norte e a Chapada dos Guimarães. E Brasília tem sua arquitetura. As arenas deverão ter atividades voltadas a shows, feiras e eventos, conforme a vocação econômica de cada localidade. Um estádio deve ser tratado como uma fonte de recursos para a cidade. O estádio Wembley, em Londres, atraiu mais de 2,5 milhões de pessoas em 2009.
Como é possível fortalecer o futebol brasileiro?
Esse é o ponto central. Para melhorar as arenas, é preciso atrair maior investimento e para isso é necessário melhorar os times e profissionalizar os clubes e a Copa. Na Alemanha, a partir da Copa de 2006, houve um aumento de até 40% na rentabilidade das arenas. O processo de sediar a Copa de 2014 poderá melhorar a competitividade do futebol brasileiro e segurar mais aqui os talentos que hoje são exportados para a Europa. E já estamos melhorando muito. Temos alguns clubes que já superaram o faturamento de R$ 100 milhões por ano e já estão entre os maiores em programas de sócios-torcedores. O Interncional de Porto Alegre é o 6º do mundo em sócios-torcedores. E o Corinthians está fazendo um excelente trabalho ao trazer grandes jogadores de volta ao Brasil com parcerias empresariais. Além disso, novas empresas estão investindo no esporte. Tudo isso são indicadores de que há melhorias ainda antes da Copa. Por outro lado, há a herança do passado e a dívida consolidada dos clubes chega a R$ 2,4 bilhões. Ainda estamos muito distantes da Europa, onde, por exemplo, os clubes da Liga Inglesa faturam 65% mais que os brasileiros.
Para essa mudança vai haver elitização do futebol?
É inegável e provavelmente um fenômeno irreversível. Se queremos melhores condições e mais conforto, há que se pagar por isso. Avalio que o ingresso médio a R$ 60,00 é um número razoável. O país vive um momento muito bom e, apesar da grande desiguldade social, a renda média dos brasileiros deve subir, o que vai permitir essa elevação no tíquete médio.
O que o Brasil ganha com isso?
A Copa de 2014 tem o dom de acelerar esse processo de profissionalização. Temos que cumprir os encargos exigidos pela Fifa até 2014. Mas isso não garante o legado, porque o legado tem que ser construído, planejado com antecedência. Se a Copa for bem feita, o legado será enorme, a imagem irá melhorar e com ela a atratividade turística e de negócios. A colheita do legado vai depender de dois pilares: investimentos em infraestrutura e capital humano, inclusive a formação de gestores. Nós temos há nove anos um programa de formação de gestores esportivos e agora estamos oferecendo um curso para outras cidades-sede, como Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Porto Alegre.
Como você vê as propostas para viabilização dos estádios?
O modelo proposto me parece interessante, porque envolve o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], que é um banco para financiar projetos de desenvolvimento, e a inicitiva privada. O mais importante, é que há um limitador de R$ 400 milhões por obra e que o banco participa com 75%, no máximo, exigindo a contrapartida de governo e iniciativa privada. O prazo também é interessante, 15 anos com carência de 3 anos. De fato, é o melhor caminho, que ainda pode contar com os eventuais patrocinadores.
Nesse aspecto, a venda de direitos sobre o nome (naming rights) pode ser uma alternativa?
Sem dúvida, desde que isso esteja bem ajustado ao projeto de marketing da empresa. O Brasil está 15 anos atrasado em relação à Europa e a experiência realizada pela Kyocera com a Arena da Baixada não é um bom exemplo justamente porque a empresa não conseguiu integrar o patrocínio à sua campanha de marketing no Brasil. Em compensação, o Santander está fazendo muito bem isso com a Copa Libertadores de América e, entre outras ações, o banco está pagando às rádios para que usem o nome Santander/Libertadores. Essa seria uma boa estratégia para o Morumbi, a Arena da Baixada e o Beira-Rio para a Copa de 2014.
*A entrevista foi feita antes da exclusão do Morumbi da Copa 2014, em 16 de junho.