1974. Pela primeira vez, os brasileiros assistiam pela TV a uma transmissão de Copa do Mundo em cores. E viram a seleção perder o Mundial em verde e amarelo. Tudo muito diferente da Copa de 70, quando reinava o clima de euforia. A equipe brasileira jogou mal e foi eliminada nas semifinais (Leia mais).
No comando do país, o estilo do general Ernesto Geisel, que subia ao poder em 1974, deixava de lado o marketing de seu antecessor, o general Médici, que tinha usado e abusado da paixão brasileira pelo futebol, posando de torcedor e até recepcionando a seleção tri-campeã na sede do Planalto.
Geisel, eleito pelo voto indireto por um Colégio Eleitoral, para um mandato de cinco anos, seria o promotor da distensão, ou "abertura lenta, gradual e segura" como ficou conhecida a política da ditadura de retorno à democracia. O que se viu, porém, foi bem diferente, e o período entrou para a história como o do apogeu da política de extermínio dos presos políticos. Os ataques clandestinos a militantes da esquerda, que culminariam em 1975 no assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo, eram patrocinados pelo setor "linha dura" do Exército.
No fim, a distensão “lenta, gradual e segura” do general Geisel foi lenta mesmo, pois durou mais de dez anos, e nem tão segura e muito menos gradual. Além disso, seu governo seria enfraquecido com o fim do "milagre econômico", com a crise do petróleo e a recessão mundial abalando a economia brasileira e fazendo crescer a insatisfação popular. A oposição política ganhava espaço, como mostram as eleições de 1974, disputadas pelos partidos oficiais - a Arena, da situação, e o MDB, da oposição. O MDB conquistaria 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e venceria para prefeito da maioria das grandes cidades.
Pacote de abril
Com medo de perder o controle da situação, a ditadura editaria ainda a Lei Falcão, que restringia a propaganda eleitoral na TV à simples exibição da foto, número e legenda do candidato. Ainda em 1974 foi editado o chamado Pacote de Abril, que fechava temporariamente o Congresso, cassava direitos civis e cancelava eleições diretas para governador, previstas para o ano seguinte. Só no final do mandato, em outubro de 1978, Geisel aprovaria uma medida importante para o processo de abertura: a revogação do Ato Institucional nº 5.
Ainda sobre o general Ernesto Geisel, o ex-chefe da Casa Militar do governo Castello Branco, teve na cerimônia de posse a presença do ditador chileno Augusto Pinochet, da esposa do presidente norte-americano Richard Nixon, já em apuros com o caso Watergate, e de representantes de quase 90 delegações estrangeiras. Na equipe do governo, figurava como chefe da Casa Civil e ideólogo da distensão o general Golbery, fundador do terrível Serviço Nacional de Informações (SNI) que, aliás, teria à frente o general João Figueiredo, ex-chefe do Gabinete Militar de Medici, e sucessor de Geisel.
"Perigo subversivo"
O aparelho repressivo decreta guerra ao "perigo subversivo", dizimando a luta armada no país. No “Discurso da Pá de Cal”, como ficou conhecido, Geisel declarava: “O governo não abrirá mão dos poderes excepcionais de que dispõe”. Tem início a série de prisões e torturas que levariam nos anos seguintes a mortes como a de Vladimir Herzog e do metalúrgico Manuel Fiel Filho.
Também os movimentos de guerrilha foram eliminados pelo governo Geisel, a maior delas a guerrilha do Araguaia - inspirada nas revoluções cubana e chinesa, e que desde fins da década de 1960 infiltrava-se na região amazônica. No começo de 1975, a grande maioria dos militantes, formada por estudantes e profissionais liberais, já tinha sido eliminada em combate na selva ou executada após sua prisão pelos militares. Em janeiro de 1975 as operações foram consideradas oficialmente encerradas. A prisão e desaparecimento de guerrilheiros brasileiros acontecia na Argentina, no Chile e na Argentina. Muitos militantes de organizações da esquerda armada do Brasil foram seqüestrados ou mortos.