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1974: a Copa da derrota e a lenta e nada segura distensão política

Tortura, prisões e futebol em baixa marcam os tempos da ditadura Geisel

Geisel e militares brindam, enquanto no país a repressão prossegue
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Regina Rocha
postado em 26/02/2010 17:51 h
atualizado em 01/03/2010 16:43 h

1974. Pela primeira vez, os brasileiros assistiam pela TV a uma transmissão de Copa do Mundo em cores. E viram a seleção perder o Mundial em verde e amarelo. Tudo muito diferente da Copa de 70, quando reinava o clima de euforia. A equipe brasileira jogou mal e foi eliminada nas semifinais (Leia mais). 

No comando do país, o estilo do general Ernesto Geisel, que subia ao poder em 1974, deixava de lado o marketing de seu antecessor, o general Médici, que tinha usado e abusado da paixão brasileira pelo futebol, posando de torcedor e até recepcionando a seleção tri-campeã na sede do Planalto.

Geisel, eleito pelo voto indireto por um Colégio Eleitoral, para um mandato de cinco anos, seria o promotor da distensão, ou "abertura lenta, gradual e segura" como ficou conhecida a política da ditadura de retorno à democracia. O que se viu, porém, foi bem diferente, e o período entrou para a história como o do apogeu da política de extermínio dos presos políticos. Os ataques clandestinos a militantes da esquerda, que culminariam em 1975 no assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo, eram patrocinados pelo setor "linha dura" do Exército.

No fim, a distensão “lenta, gradual e segura” do general Geisel foi lenta mesmo, pois durou mais de dez anos, e nem tão segura e muito menos gradual. Além disso, seu governo seria enfraquecido com o fim do "milagre econômico", com a crise do petróleo e a recessão mundial abalando a economia brasileira e fazendo crescer a insatisfação popular. A oposição política ganhava espaço, como mostram as eleições de 1974, disputadas pelos partidos oficiais - a Arena, da situação, e o MDB, da oposição. O MDB conquistaria 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e venceria para prefeito da maioria das grandes cidades.

Pacote de abril
Com medo de perder o controle da situação, a ditadura editaria ainda a Lei Falcão, que restringia a propaganda eleitoral na TV à simples exibição da foto, número e legenda do candidato.  Ainda em 1974 foi editado o chamado Pacote de Abril, que fechava temporariamente o Congresso, cassava direitos civis e cancelava eleições diretas para governador, previstas para o ano seguinte. Só no final do mandato, em outubro de 1978, Geisel aprovaria uma medida importante para o processo de abertura: a revogação do Ato Institucional nº 5.

Ainda sobre o general Ernesto Geisel, o ex-chefe da Casa Militar do governo Castello Branco, teve na cerimônia de posse a presença do ditador chileno Augusto Pinochet, da esposa do presidente norte-americano Richard Nixon, já em apuros com o caso Watergate, e de representantes de quase 90 delegações estrangeiras. Na equipe do governo, figurava como chefe da Casa Civil e ideólogo da distensão o general Golbery, fundador do terrível Serviço Nacional de Informações (SNI) que, aliás, teria à frente o general João Figueiredo, ex-chefe do Gabinete Militar de Medici, e sucessor de Geisel.

"Perigo subversivo"
O aparelho repressivo decreta guerra ao "perigo subversivo", dizimando a luta armada no país. No “Discurso da Pá de Cal”, como ficou conhecido, Geisel declarava: “O governo não abrirá mão dos poderes excepcionais de que dispõe”. Tem início a série de prisões e torturas que levariam nos anos seguintes a mortes como a de Vladimir Herzog e do metalúrgico Manuel Fiel Filho.

Também os movimentos de guerrilha foram eliminados pelo governo Geisel, a maior delas a guerrilha do Araguaia - inspirada nas revoluções cubana e chinesa, e que desde fins da década de 1960 infiltrava-se na região amazônica. No começo de 1975, a grande maioria dos militantes, formada por estudantes e profissionais liberais, já tinha sido eliminada em combate na selva ou executada após sua prisão pelos militares. Em janeiro de 1975 as operações foram consideradas oficialmente encerradas. A prisão e desaparecimento de guerrilheiros brasileiros acontecia na Argentina, no Chile e na Argentina. Muitos militantes de organizações da esquerda armada do Brasil foram seqüestrados ou mortos.

Chico Buarque: alvo preferido da censura dos anos 70

Piores anos da censura
Intelectuais e artistas brasileiros eram vítimas da ditadura, muitos optando pelo exílio no exterior. A censura também impunha fortes restrições à manifestação e expressão, e era preciso jogo de cintura para driblar os censores, de olho não apenas no que consideravam de cunho político, mas também moral. Chico Buarque, que em 1971 tinha voltado do exílio na Itália, era um alvo preferencial, e toda nova canção vinha mutilada, ou vetada. Assim, em 1974, criou o personagem heterônimo Julinho da Adelaide, que enganou os censores, deixando passar sem cortes as canções "Acorda, amor", "Jorge maravilha" e "Milagre brasileiro".

Mas no ano anterior, a música “Cálice” (Chico Buarque - Gilberto Gil), foi proibida de ser gravada e cantada. Gilberto Gil desafiou a censura e cantou a música em um show para os estudantes, na Politécnica, em homenagem ao estudante de geologia da USP Alexandre Vanucchi Leme (o Minhoca), morto pela ditadura. Ainda naquele ano, no evento “Phono 73”, festival promovido pela Polygram, Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram os microfones desligados quando iriam cantar “Cálice”, por decisão da própria produção do show, que não quis criar problemas com a ditadura.

É sob o heterônimo do Julinho da Adelaide que a censura deixa passar canções de críticas inteligentes à ditadura, lidas nas entrelinhas: “Jorge Maravilha”, que trazia o verso “Você não gosta de mim mas sua filha gosta”, que era lida como uma referência ao então presidente Geisel, cuja filha Amália Lucy, teria dito em entrevista, que admirava as canções do Chico Buarque.

Laranja Mecânica
Na Copa do Mundo de 1974, a equipe da Holanda recebeu o apelido de Laranja Mecânica, devido à cor do uniforme e pela aparente anarquia dos jogadores em campo, que lembrava as gangues do filme de Stanley Kubrick. Mas o filme,
lançado mundialmente em 1971, também virou alvo da censura e foi proibido no Brasil. Por quase toda a década de 70 os brasileiros só ouviam falar daquele polêmico filme, com inovadora trilha sonora que misturava experiências eletrônicas do rock com composições de Beethoven. Liberado para exibição no Brasil em 1978, as cópias vieram com “bolinhas pretas” sobre as genitálias dos corpos nus, porque a censura da época achava mais importante esconder a nudez do que expor as platéias à violência que o filme mostrava de forma crua e realista.





 
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