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A orgia esportiva do Brasil vai começar

Confira artigo de Carlos Zveibil Neto* sobre investimentos para a Copa e Olimpíadas

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Carlos Zveibil Neto*
postado em 22/12/2009 11:30 h

O Brasil se prepara para uma overdose esportiva nos próximos anos. Seremos, literalmente, a bola da vez em virtude da realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Mas que país queremos preparar para esses dois eventos esportivos? Se não olharmos de frente para o assunto, como é habitual, será apenas uma orgia mesmo. O Brasil continuará no seu trágico destino de país do futebol, do samba e das mulatas.

Se focarmos os investimentos na “maquiagem”, apenas para turista ver, perderemos a grande oportunidade de preparar projetos que possam transformar a realidade de muitas cidades, com infraestrutura adequada que fique e seja usufruída após os eventos.

A própria Vila do Pan, no Rio de Janeiro, teve os recursos priorizados para a embalagem e não para o conteúdo. Hoje, jogados às moscas, muitos locais de competição receberam verbas durante anos e após os jogos Pan-americanos não trouxeram qualquer benefício para o cidadão comum. Várias reportagens denunciaram, inclusive, que recursos de outras áreas, já tão precárias no Rio de Janeiro, foram desviados para a construção do Engenhão, reformas de ginásios, habitação de atletas, entre outros.

E a tendência é que caminhemos por essa mesma trajetória de insucesso. Em Natal, querem derrubar o Machadão, que não lota nem em clássico do América e ABC. Vão gastar R$ 310 milhões em um novo estádio. O empréstimo virá do BNDES e como o governo do estado vai pagar essa conta depois?

De todos os projetos, o mais sensato parece ser o de Recife que pretende construir a cidade da Copa num ramal urbanístico onde se pretende expandir o município. A região da Praia da Boa Viagem está saturada e, com um estudo bastante inteligente, pensou-se em desenvolvimento e indução de crescimento para uma região de bastante potencial.

A cidade de São Paulo também tem que olhar para essa questão e discutir com muito equilíbrio e sem sentimentalismo bairrista. O que queremos para a nossa cidade é mais desenvolvimento. Esse sempre foi o diferencial da metrópole, que não tem praia, não tem belezas naturais e se orgulha da sua alta gastronomia.

A “locomotiva” do Brasil tem que assumir a sua vocação e deixar questões menores de lado, como se será ou não sede da abertura da Copa. Isso é um fato isolado. Se aqui for o local de abertura da Copa, excelente, mas se não for, temos que priorizar o foco nos investimentos em infraestrutura, que ficarão, depois da competição para deixar a cidade econômica do País, uma capital de negócios ainda melhor.

Temos que investir, por exemplo, na ampliação do aeroporto de Cumbica, já que os gargalos hoje são irritantes e limitadores de desenvolvimento. Em nenhuma metrópole mundial você leva quase 40 minutos para passar pela Polícia Federal ou quase uma hora para pegar um táxi. Investir nesse aeroporto ou no de Viracopos (Campinas), como alternativa, é decisão para agora.

Não podemos ficar discutindo questões menores e sem importância, como a construção de uma nova rodoviária, para receber ônibus intermunicipais e interestaduais na Vila Sônia. O bairro precisará de um terminal de ônibus para a interligação com a Linha Lilás do Metrô e só. Por quê mais uma rodoviária, se as do Tietê, Barra Funda e Jabaquara, ainda são ociosas?

As três instâncias do executivo (federal, estaduais e municipais) precisam sentar, sem bandeiras partidárias e pensar nesses dois grandes eventos de forma integrada e que atenda, antes de qualquer exigência da Fifa ou do COI, às necessidades da população.

Só dessa fora faremos bonito, não para o inglês ver, que virá aqui passar um mês e depois irá embora, mas para brasileiro verem e viverem. Nós ficaremos por aqui, depois que a Copa e os Jogos Olímpicos passarem.

Os exemplos de Montreal, no Canadá, e Barcelona, na Espanha, nos remetem para uma reflexão. Barcelona foi transformada para uma Olimpíada. Está na Europa, com a mobilidade de trens, aviões, ônibus, estradas bem conservadas, isso sem falar no alto poder aquisitivo do cidadão europeu. Já Montreal, na década de 70, quando realizou os Jogos Olímpicos deveria ter o mesmo número de voos internacionais que hoje o Brasil tem. Talvez um pouco menos ou um pouco mais, mas o certo é que como nós, Montreal estava mais isolada do que Barcelona, mas era vizinha de uma grande potência, os Estados Unidos.

Bem, Barcelona rapidamente reverteu os gastos e saneou as dívidas com os altos investimentos para o evento, enquanto Montreal terminou recentemente, 30 anos depois, de pagar os empréstimos contraídos.

Temos que refletir sobre essas questões e decidir rápido, por que as obras têm que começar em março do próximo ano. Caso contrário, não ficarão prontas para os eventos. Temos oportunidades de crescimento em vários setores e as decisões precisam ser focadas e muito bem pensadas. No caso do Rio de Janeiro, os investimentos que virão podem ter um caráter transformador e resgatar a cidade maravilhosa para os cariocas e todos os brasileiros. É só aprender com o passado e olhar para frente.

*Carlos Zveibil Neto é vice-presidente da APEOP – Associação Paulista dos Empresários de Obras Públicas





 
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