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O livro dos craques

Francês narra história do futebol através da biografia de 87 ídolos do esporte

Pelé: com a bola, um Picasso (crédito: Larousse)
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Rafael Massimino
postado em 04/09/2009 16:23 h
atualizado em 08/09/2009 14:44 h

Memória e afetividade são as marcas de “Craques do Futebol”. No livro, o jornalista francês Bernard Morlino substitui estatísticas e rankings por uma série de narrativas pessoais da história do futebol. São 87 biografias - acompanhadas de fotos - de jogadores consagrados em todos as épocas e cantos do mundo.

Logo na capa, um Pelé adolescente e assustado é flagrado pela câmera num vestiário do Maracanã. Como os relatos de Morlino, a imagem em preto-e-branco tenta explorar, de modo indireto, os mistérios de um esporte que emergiu dos subúrbios ingleses à esfera das bilionárias transmissões midiáticas.

"Craques do futebol" tenta resgatar exatamente a dimensão inexplicável do esporte. Explorando a face épica, e às vezes trágica, das trajetórias pessoais, Morlino coloca o “rei dos esportes” em pé de igualdade com o jazz, o cinema, a pintura e a cultura pop. Para o autor, o esporte favorito do povo deve ser alçado ao patamar das belas-artes.

É assim que coloca Pelé no panteão dos “virtuosos”, cuja habilidade com a bola é comparada à de Picasso com os pincéis. A dupla Puskas-Di Stefano são os Lennon e McCartney do Real Madrid campeão europeu de 1960. Maradona tinha a dimensão de um Cristo e Zidane, tão importante quanto o pintor Cézanne, fez a França sonhar acordada durante oito anos. Dos arquitetos aos bad boys, dos hippies, como Sócrates, aos pit bulls, como o italiano Gattuso, Morlino analisa todos os estilos de craques, lembrando que os grandes não são apenas os que balançam as redes.

Maradona: o Cristo redentor dos argentinos (crédito: Larousse)

Escrito para o público francês, mas com a capacidade de falar a todas as culturas que tenham enraizado o gosto pelo futebol, o livro resgata ídolos esquecidos ou anônimos, mas que desempenharam papel decisivo na história do esporte. São poucos os que se lembram do francês Raymond Kopa, ofuscado pelo artilheiro de todas as Copas, Just Fontaine. Garrincha, diminuído quase ao folclórico pela crônica esportiva, carregou a seleção brasileira nas costas na conquista do bicampeonato em 1962, mas ficou obscurecido pela idolatria a Pelé.

Desse modo, Morlino faz um elogio da memória. Sem ela, diz o autor, perdemos nossa identidade. Aspectos sombrios também são evocados, como o revanchismo da Argentina contra a Inglaterra desencadeado pela Guerra da Malvinas de 1982. Quatro anos depois, lembra Morlino, Maradona foi o "redentor" dos sul-americanos: marcou dois gols - um de mão e outro driblando metade do time inglês - que eliminaram os adversários da Copa do Mundo. A vitória nos gramados lavava a alma dos derrotados na guerra, levando às lágrimas o locutor Victor Hugo Morales.

Na visão de Morlino, aliás, os governantes sul-americanos parecem não merecer o prestígio que seus craques geram. Cria uma frase lapidar para o título argentino de 1978, que caberia muito bem para o tricampeonato brasileiro em 1970: “Na América do Sul, o futebol é mais que futebol. Os abutres do poder tentam sempre se apropriar dele, transformando os estádios em imensas prisões.”





 
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