
Em Natal e em Fortaleza, os estádios Machadão e Castelão nem sequer foram fechados. Já em Recife e em Salvador, nada foi construído.
Depois que a última coluna “O futebol sergipano ainda existe?” foi publicada aqui, recebi vários emails de companheiros da imprensa nordestina destacando a situação precária do futebol em seus respectivos Estados, e depois disso uma pergunta não saiu mais da minha cabeça: não era melhor que os empréstimos e os investimentos que estão sendo feitos para a Copa 2014 no Nordeste fossem utilizados para a reconstrução do futebol nordestino como um todo? Sim, seria no mínimo inteligente. Esse negócio de Copa do Mundo no Nordeste está cada vez mais claro para mim que acontecerá da mesma forma que ação de prefeitura quando vai para bairro carente fazer um dia de ação social. Vai lá, leva sua infra-estrutura de alimentação, esportes, lazer em geral, e transforma aquele dia-a-dia sofrido num dia de sonhos.
É o que acontece com Natal, por exemplo, que atualmente tem um time na Série B e outros dois na Série C, tem um fraco campeonato estadual e, incrivelmente, foi a sede brasileira que mais gastou no quesito projeto para a Copa de 2014: R$ 27 milhões (quase o dobro da terceira que mais teve custos). Isso sem falar no custo de cerca de R$ 400 milhões que o Estádio das Dunas vai trazer e todas as outras ações do governo do Rio Grande do Norte, nas áreas de mobilidade urbana, aeroportos, turismo, etc. Aí eu pergunto: do que vai adiantar tudo isso se quando o encanto da Copa acabar voltaremos para os nossos estaduais esvaziados, para os nossos times sem estrutura, para o nosso futebolzinho amador?
E não adianta vir com esse papo que toda essa estrutura vai impulsionar o crescimento do nosso futebol, que eu não caio nessa balela! Afinal você já viu alguém dá um jatinho a um menino pobre e ele saber utilizar? Você já viu alguma pessoa sem instrução ganhar R$ 20 milhões na loteria e fazer esse dinheiro render? Já imaginou como um milionário e gigante Estádio das Dunas (capacidade: 45 mil lugares) será mantido só com o clássico ABC x América-RN? E um Baptistão reformado para receber mil pagantes (e dois mil não pagantes…) para ver Confiança x Sergipe?
Detalhe é que desde o início de 2009, quando comecei a fazer a cobertura jornalística das sedes e das possíveis subsedes nordestinas para o Portal Copa 2014, ouvi promessas que as licitações estavam prontas e que o trabalho estava acelerado e, inclusive, à frente de outras regiões do Brasil. Tudo conversa fiada! Natal ainda está em fase de licitação para o Estádio das Dunas. Recife conseguiu só essa semana a liberação ambiental para começar as obras da Cidade da Copa. Já a nova Fonte Nova, em Salvador, e o novo Castelão, em Fortaleza, estão na mesma e preocupante situação.
Segundo o cantor Lulu Santos, “Nada do que foi será, de novo, de um jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará, a vida vem em ondas, como um mar”. Mas me desculpem os fãs de Lulu e todos aqueles que acham que isso é verdade. Desse jeito, a fase negra do futebol nordestino não vai mudar, e se isso acontecer, vai mudar para pior (tem como?). Pois o castelo de areia com certeza vai ficar imponente, brilhoso, lindo (com os investimentos fantásticos do poder público e dessas parcerias privadas que vão lucrar por 30 anos), mas quando a onda chegar, ou melhor, quando a Copa passar, ele vai desmoronar…
E “quem espera que a vida, seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão, é preciso ter cuidado, para mais tarde não sofrer, é preciso saber viver”. Contudo, dá para ultrapassar essa gigante pedra num caminho com várias flores com espinhos? Enquanto você pensa na resposta, eu faço questão de repetir: é preciso saber viver futebol nordestino…
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