Manaus: muito trabalho por fazer.

9 de agosto de 2010 por Ênio Padilha | Legado

Estive em Manaus neste fim de semana, para dar aula num curso de pós-graduação em Gestão de Obras e projetos. Já estive em Manaus algumas vezes, mas foi a primeira vez que o meu olhar se deteve nas questões de infraestrutura urbana e nas oportunidades para engenheiros e arquitetos.

Manaus tem um longo caminho a percorrer se quiser fazer bonito em 2014.

O trânsito é confuso, a rede hoteleira é deficiente, o aeroporto é incompatível com as pretensões de destino internacional. E, como em muitos outros lugares do Brasil, as questões técnicas ainda são tocadas pelos ventos da política.

As atividades ligadas ao setor público ainda são muito fortes, especialmente na Arquitetura e na Engenharia e isto acaba limitando o espírito empreendedor tão necessário para aproveitar as oportunidades dos próximos anos.

Fui ciceroneado pelo meu amigo Carlos Alonso, engenheiro agrônomo, que já vem há algum tempo se especializando na produção de gramados esportivos (ele foi um dos alunos do curso ministrado por Artur Melo, no Rio de Janeiro). Tive uma boa aula sobre o assunto.

Ele falou da preocupação com relação ao gramado do novo estádio: o gramado necessita de, no mínimo, 120 dias desde o plantio dos plugs até ficar em condições de uso. No mínimo!

Mas, se, como aconteceu na África do Sul, a construção do estádio atrasar, pode ser que não haja esse tempo. E aí, o que se verá será o que se viu em alguns estádios da África: gramados deficientes, colocando em risco a integridade física dos jogadores e a beleza do espetáculo.

Os custos com o campo de jogo correspondem a menos de 1% do custo total do estádio. Mas o gramado é, sem dúvida, a principal estrela do espetáculo. Portanto, atenção Manaus: pressão sobre os construtores para que esses atrasos não ocorram.

Apesar de tudo, o clima na cidade é de franca euforia e otimismo. Em função da Copa de 2014, Manaus está empenhada em muitas obras: implantação do BRT (Bus Rapid Transit – Trânsito Rápido de Ônibus); implantação do Monotrilho; diversas obras de infra-estrutura viária, além da ponte sobre o Rio Negro, ligando Manaus a Iranduba que será a maior ponte fluvial do Brasil (segunda maior do mundo), com 3600 metros de extensão.

Além disso, Manaus está promovendo uma obra de urbanismo digna de aplauso: o programa de revitalização dos Igarapés com a mudança dos moradores das palafitas (verdadeiras favelas sobre as águas) e a transformação do espaço urbano. Ouso dizer que, mesmo que o novo estádio de Manaus acabe virando um “elefante branco”, com os Igarapés revitalizados o saldo social e urbano terá sido muito positivo para a cidade.

ÊNIO PADILHA
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 O Artigo de Simon Kuper e o Relatório da Ernst & Young

4 de agosto de 2010 por Ênio Padilha | Legado

O artigo do jornalista inglês Simon Kuper “A verdade após 2014″ não é apenas um manifesto pessimista, como alguns querem rotular. Tem verdades ali que, embora não sejam muito agradáveis, devem ser observadas.
Da mesma forma, o Relatório da Ernst & Young “Brasil sustentável – Impactos Socioeconômicos da Copa do Mundo 2014″ não deve ser tomado como verdade absoluta e bíblia de quem pretende investir no país, visando retornos com o evento.

Aquela senhora sem nome, citada no artigo de Simon Kuper tem razão quando diz que nas pesquisas sobre megaeventos (todos os megaeventos) as previsões de retornos econômicos são altamente inflados por pessoas que esperam lucrar com os eventos. E, por isso, consultorias contratadas pelo governo brasileiro para “estimar” (ou adivinhar) o reforço econômico que o Brasil terá com sua Copa e sua Olimpíada escrevem relatórios tão otimistas.

Por outro lado, dizer que “África do Sul não teve legado e Brasil também não terá”, como diz o jornalista Inglês é uma expressão de simplismo indigna de um profissional que se quer vender como fonte internacional de referência. Uma coisa é dizer que o legado não será do tamanho que está sendo anunciado (isso é verdade). Outra coisa, bem diferente, é dizer que não haverá legado algum. Isso é um absurdo!

A França, por exemplo, uma economia madura e um destino turístico consagrado, recebia 60 milhões de turistas por ano até 1998 e passou para 70 milhões depois da Copa do Mundo. A menos que alguém me apresente outros argumentos, acredito que esse incremento no turismo (que é um dos principais produtos da França) é, sim, um legado da Copa do Mundo.

Outra coisa: com todo respeito aos sul-africanos, não dá pra comparar o Brasil com a África do Sul. São dois países muito diferentes na história, na geografia, na política e, principalmente, na economia. Sem contar a tradição do Futebol. Na Africa do Sul ele não é sequer o esporte mais popular.

Creio que esse assunto poderá voltar a ser explorado ainda muitas vezes por aqui, mas gostaria de introduzir um tema recorrente quando as discussões se voltam para o tema “legado”: os tais elefantes brancos. E sempre se inicia a lista com os estádios de Brasília, Mato Grosso e Manaus.

Primeiro: é preciso aceitar que uma Copa do Mundo no Brasil sem nenhum jogo em Brasília, na Amazônia ou no Pantanal seria inaceitável (do ponto de vista internacional). Portanto, esses estádios não são elefantes brancos. São parte do preço que se tem de pagar;

Segundo: quem pode afirmar que serão elefantes brancos? Quem pode afirmar que a Copa do Mundo não poderá fazer surgir algum grande clube na região, capaz de chegar à série “B” ou “A” do Campeonato Brasileiro? Onde está escrito que grandes estádios somente são razoáveis no sul e no sudeste? O amigo leitor sabe quais são os três maiores campeonatos de futebol de várzea do mundo? Pois eu digo: Futebol Participativo de Recife, Copa Kaiser em São Paulo e o Peladão de Manaus. Isso mesmo. De Manaus!

Terceiro: e se nada disto acontecer? Há muita coisa que se pode fazer com um estádio de futebol: shows musicais, grandes festas e até mesmo, simplesmente, ser incluído como destino turístico. Fazer parte do city tour dos turistas estrangeiros (e nacionais), como já acontece hoje com o Maracanã, com o Morumbi e com o Teatro Amazonas.

ÊNIO PADILHA
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 Indicadores de Desempenho, Já!

31 de julho de 2010 por Ênio Padilha | Riscos e Oportunidades

Quando falamos da Copa de 2014, é importante observar que não é apenas o título de campeão mundial que estará em jogo. Para o Brasil (para os brasileiros em geral) estará em jogo também a reputação do país no que diz respeito à sua capacidade econômica, técnica e organizacional. O evento será uma “hora da verdade” para muitos segmentos (principalmente a política, a administração, a arquitetura e a engenharia).

Mas eu tenho certeza de que, quaisquer que sejam os resultados da organização brasileira, não faltará quem venha à público pra dizer que tudo foi muito bem, que o trabalho foi muito bem feito, que estamos todos de parabéns, etecetera e tal.

Talvez seja até verdade. Espero mesmo que seja. Mas… como saberemos?

Se a avaliação for feita apenas em 2014, com base nos apertos e apuros vividos em 2013, é muito provável que prevaleça a sensação de que tivemos uma grande vitória, pois, “apesar das grandes dificuldades, conseguimos vencer os desafios” e concluímos as obras no prazo previsto.

O problema é que essas “grandes dificuldades” não são naturais do processo. Os problemas que consumirão energia e recursos em 2014 serão produzidos, em 2011 e 2012 (depois que o processo foi iniciado). Serão criados pela nossa incompetência ou inoperância. Portanto, tê-los vencido não é um ato excepcional e sim, apenas uma correção do rumo. Um trabalho que nem deveria ter sido necessário. Correção de rumo que, provavelmente, terá custado caro. Muito caro!

Então, para sabermos se vencemos ou não o desafio de produzir o evento com competência e eficiência precisamos AGORA, determinar as regras do jogo: estabelecer os indicadores de desempenho que nos permitirão saber se conseguimos concluir o trabalho, se o trabalho foi bem feito, se foi feito no prazo previsto e se foi feito dentro do custo previsto.

Estou propondo a construção de um quadro geral de INDICADORES DE DESEMPENHO. Uma tabela com os compromissos e os objetivos que HOJE consideramos razoáveis. Uma tabela que nos ajude, em 2014 a estabelecer uma pontuação verdadeira para o nosso desempenho.

Por exemplo: Se uma determinada obra está orçada em 420 milhões de reais e tem o prazo de conclusão previsto para junho de 2013, não poderemos considerar “missão cumprida” se a obra for concluída em novembro de 2013 e custar 650 milhões;
Vejamos por exemplo, o caso do gramado de alguns estádios da Copa da África do Sul. Estavam em péssimo estado. Certamente foram concluídos em cima da hora. Ficaram prontos, mas não foi uma obra com a qualidade prevista.

Na tabela que apresento abaixo estão as principais obras nas cidades sedes dos jogos da Copa do Mundo de 2014. Creio que esta tabela poderá ser um PLACAR onde poderemos registrar os INDICADORES DE DESEMPENHO dos organizadores. Avalie os indicadores sugeridos e faça comentários neste post, sugerindo inclusões, exclusões e alterações. Ajude-nos a compor um documento com as previsões assumidas pelos organizadores.

Será com base nessas previsões (na verdade, compromissos, promessas) que a organização do evento será julgada em 2014.

ÊNIO PADILHA
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 NOSSAS REGRAS PARA COMENTÁRIOS NOS POSTS

29 de julho de 2010 por Ênio Padilha | Regras para Comentários

Este Blog possui uma ferramenta que permite ao autor avaliar todos os comentários antes que eles sejam publicados. Porém, optamos por não utilizar esse recurso e permitir que os comentários sejam publicados imediatamente após serem feitos pelo leitor.

No entanto, para garantir o bom nível e a produtividade das nossas discussões, estamos estabelecendo algumas
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 Engenheiros e Arquitetos Levarão a Culpa!

26 de julho de 2010 por Ênio Padilha | Riscos e Oportunidades

Não basta, para um engenheiro ou arquiteto, projetar o maior, melhor e mais bonito estádio de futebol. É preciso ter a capacidade de construí-lo.
E não basta construir o estádio. É preciso que ele seja construído no prazo previsto.
E, cumprir o prazo não é o bastante. É preciso que o orçamento original seja cumprido.

Estes são os quatro desafios da Arquitetura e da Engenharia brasileira nos próximos seis anos (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos): projetar, construir, construir no prazo e construir respeitando o orçamento original.

Engenheiros e Arquitetos aprendem, na faculdade, a lidar com um mundo ideal. O mundo da técnica, da ciência e da tecnologia. Nesse mundo ideal não existem clientes e suas demandas, muitas vezes urgentes e absurdas. Não existem políticos e suas intenções nem sempre límpidas e transparentes; não existem empresários gananciosos (construtores, empreiteiros, fornecedores de material, locadores de equipamentos…) querendo levar vantagem em cada etapa da obra. No mundo ideal das escolas de Engenharia e de Arquitetura essas dificuldades não são incluídas no planejamento da obra.

Por isso os engenheiros e arquitetos, quando apresentados ao mundo real, não têm instrumentos intelectuais para lidar com ele e acabam sendo engolidos, virando massa de manobra de luxo. Virando os caras que vão levar a culpa lá no fim da história.

Tenho minhas sinceras dúvidas sobre se a Engenharia e a Arquitetura brasileiras (aí representadas pelo Confea, pelos Creas, pelas entidades de classe e pelos sindicatos) já se deram conta do momento crítico (da oportunidade e do risco) que significam esses dois grandes eventos para o desenvolvimento das nossas profissões. Podemos chegar em 2016 fortalecidos e respeitados (no Brasil e no Mundo) como profissionais de nível internacionais ou podemos ser responsabilizados pelos problemas resultantes. Nunca é demais lembrar que os políticos e os empresários gananciosos já estão treinados nisso de se livrar da culpa, jogando-a no colo de quem estiver mais próximo. E, nesse caso, nem precisa ser gênio pra adivinhar quem é que estará bem próximo, para ser responsabilizado.

Não são apenas os estádios, os aeroportos, portos, estradas, hotéis, centros administrativos e outras obras de utilização direta na Copa e nos Jogos Olímpicos. Serão centenas, milhares, talvez milhões de obras (e reformas) em todo o Brasil que envolverão muitos engenheiros e arquitetos, que precisam ficar atentos ao fato de que, dessa vez estamos falando de eventos. E que, quando tratamos com eventos temos de vencer os três desafios propostos no início deste artigo: Fazer a obra. Fazê-la no prazo correto, e concluir a obra sem comprometer o orçamento original.

Portanto, engenheiros e arquitetos precisam incluir nas suas análises o processo decisório e agir para que ele não comprometa a qualidade do seu trabalho. É atentar para o que eu chamo de A EQUAÇÃO DO EVENTO, já explicada no post “Onde a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos se encontram”

Geralmente o que acontece é que existe um esforço de última hora para que a coisa fique pronta e haja uma sensação de que tudo deu certo. O caso do Engenhão, no Rio de Janeiro é um exemplo típico. O que aconteceu com a Cidade do Cabo, na África do Sul é outro. A novela do Morumbi, em São Paulo é mais uma… e assim, seguimos, desperdiçando engenharia e arquitetura. E fazendo por 900 milhões o que poderia ser feito por 200 milhões.

Todo mundo ganha. Menos a Engenharia e a Arquitetura.

ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.brep@eniopadilha.com.br

Quando o Rio de Janeiro foi escolhida como cidade sede dos Jogos 2016 escrevi um artigo falando sobre as possibilidades de ação para nós, engenheiros e arquitetos.
Acho que tudo o que foi escrito lá vale para a Copa do Mundo e é a melhor maneira de abrir os trabalhos aqui neste blog.
Espero contar com a participação dos colegas na discussão e nas proposições.
Copa do Mundo e Jogos Olímpicos são dois eventos que engenheiros e arquitetos não podem apenas ver pela TV ou nas arquibancadas. Temos a obrigação de participar ativamente.

Aí está o artigo:

BRASIL OLÍMPICO: O QUE É QUE EU TENHO COM ISSO?
Você sabe por que a escolha da cidade sede dos Jogos Olímpicos é feita com sete anos de antecedência?
Simples: é porque a experiência já demonstrou ao Comitê Olímpico Internacional que as providências necessárias para a realização do evento precisam de SETE ANOS para serem executadas (inclusive em países ricos e bem estruturados, como a Inglaterra, por exemplo, sede dos Jogos Olímpicos de 2012).

No Brasil essa idéia nunca ficou muito clara. Os Jogos Pan Americanos foi um claro exemplo disso. E a consequência principal foi justamente o estouro espetacular do orçamento, pois não levaram em conta aquilo que eu chamo de A EQUAÇÃO DO EVENTO que está ligada ao processo decisório.

Uma das características fundamentais dos eventos é a sua “hora marcada”. Uma vez determinado, o evento não espera. Ele irá acontecer no momento previsto. Isto é dado como variável incontrolável. As outras coisas é que vão variar de acordo com as decisões dos organizadores.

A qualidade de um evento bem como seus custos são resultados diretamente vinculados à antecedência das decisões tomadas. Em linguagem de engenheiro podemos dizer que “a qualidade do evento (Qe) é diretamente proporcional ao tempo decorrido entre a Tomada de Decisão (TDe) e a realização do evento; por outro lado, os custos do evento (Ce) são inversamente proporcionais ao tempo decorrido entre a Tomada de Decisão (TDe) e a realização do evento.

Assim, (1) Qe = k * TDe
e (2) Ce = k * 1 / TDe

A combinação das equações (1) e (2) pode ser enunciada da seguinte forma: “quanto mais demorada é a decisão sobre o evento, menor será a sua qualidade e maior será o seu custo”.

Esta conclusão, por mais óbvia que possa parecer, nem sempre é observada pelos decisores de eventos, podendo gerar enormes desgastes e prejuízos para o evento e para a instituição organizadora. No caso dos Jogos Olímpicos, a instituição organizadora é o povo brasileiro (não se iludam os cariocas: para um Dinamarquês, Francês ou Japonês não existe Paulista, Mineiro, Carioca ou Gaúcho. Só existe Brasileiro!)

Assim, meus amigos, temos sete anos para realizarmos uma tarefa que demanda sete anos para a sua realização eficiente. Se deixarmos para fazer em 2011 o que precisa ser feito em 2010 automaticamente será acionada a EQUAÇÃO DO EVENTO: a qualidade diminuirá ou os custos aumentarão.

Como cidadão brasileiro e como engenheiro, sem estar na equipe da organização dos jogos, eu sei perfeitamente qual é o meu papel, ou seja, como é que eu posso contribuir:

Primeiro, sendo otimista e reconhecendo o trabalho dos que estiverem na linha de frente. Estimulando o trabalho deles da maneira que for possível: divulgando o andamento dos trabalhos, vestindo a camisa, sendo um torcedor;

Segundo, agindo sobre as instituições às quais eu estou ligado (Entidade de Classe, Crea, Confea…) instando-as à ação proativa. Nossas instituições precisam ficar em alerta permanente. Têm de fiscalizar os trabalhos, os projetos, as licitações, os contratos e as obras. Os profissionais de Engenharia e de Arquitetura estão preparados para esse tipo de vigília e não podem faltar nessa hora.

Terceiro, exigindo transparência. Me associando à instituições que se disponham a vigiar a transparência dos contratos e dos processos. Apoiando os Creas, o Confea e as Entidades Nacionais que se engajarem nessa empreitada.

O projeto dos Jogos Olímpicos do Brasil não pode ser uma caixa preta. Não é um projeto do COB. Não é um projeto do Rio de Janeiro. Não é um projeto do Governo do Brasil. É um projeto do Povo Brasileiro! E nós, engenheiros e arquitetos precisamos assumir nossos postos: na linha de frente da fiscalização.

ÊNIO PADILHA
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